Ar seco no inverno: por que a umidade cai nos escritórios e o que isso significa para quem trabalha lá

 

Todo ano, na mesma época, a queixa se repete: garganta seca no fim do dia, olhos ardendo, uma sensação de cansaço que não tinha lá em outubro. E, quase sempre, a explicação que circula é “deve ser o ar-condicionado”. Só que a causa raiz é um pouco mais específica e entender ela é o primeiro passo para saber se o ambiente da sua empresa está dentro do que seria considerado adequado, ou se está silenciosamente fora da faixa recomendada há meses.

Por que o ar fica mais seco no inverno, mesmo em ambientes climatizados?

Resposta direta: no inverno, o ar externo já é naturalmente mais seco, menos chuva, menor umidade relativa. Quando esse ar entra num ambiente fechado e é aquecido (pelo clima ou por sistemas de climatização em modo quente), a quantidade de vapor d’água no ar continua a mesma, mas a capacidade do ar de reter umidade aumenta com a temperatura, o resultado prático é que a umidade relativa despenca.

Some a isso um hábito quase automático nessa época: portas e janelas ficam fechadas por mais tempo, para manter o conforto térmico. Isso reduz a renovação natural do ar e faz com que o ambiente interno fique preso naquele ciclo de ar seco, sem trocar com o ar externo, mesmo que lá fora as condições já tenham melhorado.

Qual é a umidade ideal para um ambiente de trabalho?

Resposta direta: a referência mais usada, com base em recomendações da Organização Mundial da Saúde, é manter a umidade relativa entre 40% e 60%. Abaixo de 30%, o desconforto se intensifica e os sintomas físicos passam a aparecer com mais frequência.

Em boa parte das regiões do Brasil, durante o inverno, é comum medições apontarem entre 20% e 30%, bem abaixo do que seria considerado uma faixa segura para permanência prolongada. O problema é que, diferente de uma temperatura desconfortável (que qualquer pessoa sente na hora), a umidade baixa é silenciosa: o efeito é cumulativo, não imediato, e por isso costuma passar despercebido até os sintomas já estarem instalados.

Quais sintomas o ar seco causa em quem passa o dia em ambiente fechado?

Os sintomas mais associados a ambientes com baixa umidade em período prolongado são:

  • Ressecamento e irritação nas vias respiratórias (nariz e garganta secos)
  • Olhos ardendo ou com sensação de areia
  • Pele ressecada, principalmente nas mãos
  • Maior suscetibilidade a irritações e infecções respiratórias
  • Agravamento de quadros de alergia, rinite e sinusite já existentes

Esses sintomas tendem a ser mais intensos em grupos mais sensíveis, crianças, idosos e pessoas com condições respiratórias prévias, mas em ambientes corporativos o efeito mais comum relatado é mais sutil: uma sensação geral de cansaço e desconforto ao longo do dia, que raramente é associada de imediato ao ar do próprio escritório.

O ar-condicionado resseca o ar, ou o problema é outro?

Resposta direta: o ar-condicionado não cria o ar seco do zero, ele intensifica um processo que já começa lá fora. Quando o sistema é usado no modo aquecimento, ele eleva a temperatura do ambiente sem adicionar vapor d’água, o que reduz ainda mais a umidade relativa percebida.

Isso não significa que o sistema de climatização seja o vilão. Pelo contrário: um sistema bem dimensionado, com filtragem adequada e, quando necessário, associado a controle de umidificação, é justamente o que ajuda a manter o ambiente dentro da faixa ideal. O problema aparece quando o sistema só controla temperatura, sem nenhum controle de umidade ou renovação de ar, e ninguém percebe a lacuna até os sintomas começarem.

Isso é diferente da qualidade do ar interno (QAI)?

Umidade é um dos parâmetros que compõem a qualidade do ar interno, não é ela sozinha. QAI é um conceito mais amplo, que também inclui concentração de CO₂, presença de fungos e partículas em suspensão, e a taxa de renovação de ar externo.

A norma técnica de referência atualmente vigente no Brasil para parâmetros de qualidade do ar interior é a NBR 17037:2023, que substituiu a antiga Resolução RE nº 9/2003 da Anvisa (hoje revogada, vale atenção, porque ainda é comum encontrar conteúdo desatualizado citando a resolução antiga como se estivesse em vigor). No inverno, o parâmetro de umidade costuma ser o primeiro a sair do ideal, mas raramente é o único — é comum que baixa umidade venha acompanhada de baixa renovação de ar, já que ambos pioram pelo mesmo hábito: manter tudo fechado.

Como saber se o ar do seu escritório está dentro do ideal?

Não dá pra saber só pela sensação térmica, duas salas com a mesma temperatura podem ter umidades bem diferentes, e o corpo não distingue isso com precisão. A única forma confiável é medir: uma análise de qualidade do ar interior avalia umidade relativa, temperatura, CO₂ e outros parâmetros definidos pela NBR 17037, mostrando exatamente onde o ambiente está em relação à faixa considerada adequada — e não apenas se “parece” confortável.

Perguntas frequentes

Ar seco faz mal mesmo com o ar-condicionado ligado? Sim. O ar-condicionado, sozinho, controla a temperatura e não necessariamente umidade. Um ambiente pode estar com a temperatura perfeita e, ainda assim, com a umidade bem abaixo do recomendado.

Qual a diferença entre umidade ideal no verão e no inverno? A faixa recomendada (40% a 60%) é a mesma o ano todo, mas no inverno é bem mais difícil de manter, porque o ar externo já entra mais seco e os ambientes ficam mais tempo fechados, reduzindo a renovação natural.

Umidificador resolve o problema sozinho? Ajuda, mas não resolve todos os parâmetros da qualidade do ar interior. Um ambiente pode ter umidade controlada e ainda assim ter CO₂ elevado ou ventilação insuficiente, por isso a avaliação completa costuma trazer um diagnóstico mais confiável do que corrigir só um fator isoladamente.

Não dá pra saber se o ar do seu escritório está dentro do ideal só pela sensação. Uma análise mostra exatamente onde o ambiente está e o que fazer a respeito.

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