Por muito tempo, diferentes aspectos dos ambientes internos foram avaliados de forma relativamente independente.
A qualidade do ar é analisada por determinados parâmetros. O conforto térmico possui seus próprios critérios. Iluminação e acústica seguem outras referências.
Essa lógica começa a ganhar uma abordagem mais integrada.
Em 2026, a ASHRAE autorizou o desenvolvimento do Standard 235P – Standard for Indoor Environmental Quality (IEQ) in Buildings, com a proposta de estabelecer requisitos para avaliar e apoiar condições aceitáveis de qualidade ambiental interna em edifícios.
O novo padrão pretende considerar diferentes domínios ambientais de forma conjunta, incluindo qualidade do ar, condições térmicas, iluminação, acústica e características dos sistemas e da própria edificação que possam influenciar o desempenho ambiental. (ASHRAE, 2026)
Para profissionais de Facilities, engenharia, arquitetura e operação predial, a iniciativa merece atenção porque pode representar uma mudança importante na forma de interpretar o desempenho dos ambientes internos.
O que é Indoor Environmental Quality?
Indoor Environmental Quality, ou IEQ, é um conceito mais amplo do que qualidade do ar interior.
Enquanto a qualidade do ar se concentra nas condições do ar respirado pelos ocupantes, a IEQ considera diferentes fatores que compõem a experiência ambiental dentro de uma edificação.
Entre eles estão:
- qualidade do ar interior;
- conforto térmico;
- iluminação;
- acústica;
- características dos sistemas prediais;
- condições do próprio espaço construído.
A lógica é relativamente simples: uma pessoa não experimenta cada uma dessas condições separadamente.
Um escritório pode apresentar parâmetros adequados de qualidade do ar e, ainda assim, gerar reclamações frequentes por temperatura, ruído excessivo ou iluminação inadequada.
Da mesma forma, um ambiente termicamente confortável não necessariamente apresenta boas condições de ventilação ou qualidade do ar.
Por isso, avaliar o desempenho de um espaço apenas por uma variável pode não ser suficiente para compreender como aquele ambiente funciona para seus ocupantes.
O que é o Standard 235P?
O Standard 235P ainda está em desenvolvimento.
Seu projeto foi autorizado pela ASHRAE em fevereiro de 2026, com o objetivo de criar uma estrutura integrada para avaliação da Indoor Environmental Quality em edifícios. (ASHRAE, 2026)
De acordo com o escopo divulgado pela entidade, o padrão pretende estabelecer requisitos e princípios de avaliação da IEQ no nível do edifício ou do ambiente.
A proposta é complementar as normas já existentes da ASHRAE, e não substituir os padrões específicos relacionados a cada domínio ambiental.
Isso é importante.
O desenvolvimento do 235P não significa que referências específicas para ventilação, conforto térmico ou outros parâmetros deixarão de existir.
A proposta é criar uma estrutura que permita enxergar essas diferentes condições de forma mais coordenada.
Por que essa mudança de visão é relevante?
Imagine um ambiente corporativo em que os ocupantes reclamam constantemente de desconforto.
A primeira reação pode ser verificar a temperatura do ar-condicionado.
Se a temperatura estiver dentro dos parâmetros esperados, a investigação poderia terminar ali.
Mas a origem do desconforto pode estar relacionada à velocidade do ar, incidência solar, temperatura das superfícies, ventilação, ruído ou a uma combinação de diferentes fatores.
Uma abordagem integrada amplia a pergunta.
Em vez de apenas verificar se cada parâmetro atende isoladamente a determinado critério, passa a ser possível analisar como o conjunto das condições ambientais está funcionando.
Esse raciocínio pode ser especialmente relevante em edifícios complexos, ambientes corporativos, hospitais, escolas, hotéis, data centers e outras instalações em que diferentes sistemas operam simultaneamente.
Qualidade do ar continua sendo importante?
Sim.
A criação de uma abordagem integrada não diminui a importância da qualidade do ar interior.
Pelo contrário.
A qualidade do ar permanece como um dos componentes centrais da Indoor Environmental Quality.
Ventilação, material particulado, compostos químicos, contaminantes biológicos e outras condições continuam exigindo avaliações específicas.
A diferença está na interpretação.
Um resultado adequado de qualidade do ar responde perguntas importantes sobre aquele domínio, mas não necessariamente explica toda a percepção que os ocupantes têm daquele ambiente.
O mesmo vale para temperatura, iluminação ou acústica.
Cada avaliação fornece uma parte da informação.
A abordagem integrada busca compreender como essas partes se relacionam.
O que pode mudar para Facilities?
Para profissionais de Facilities, uma das principais implicações está na forma de investigar problemas.
Grande parte das demandas relacionadas à qualidade ambiental surge a partir de situações como:
- reclamações recorrentes de ocupantes;
- áreas que apresentam desconforto mesmo após ajustes;
- diferenças entre ambientes de um mesmo edifício;
- alterações após reformas ou mudanças de layout;
- aumento ou redução da ocupação;
- modificações nos sistemas prediais.
Nesses casos, analisar apenas uma variável pode levar a sucessivas intervenções sem que a origem do problema seja identificada.
Uma visão baseada em IEQ incentiva uma análise mais ampla antes da tomada de decisão.
Para Facilities, isso pode significar integrar informações que antes eram tratadas separadamente por diferentes equipes ou fornecedores.
O que pode mudar para projetos e reformas?
O conceito também pode influenciar a maneira como novos espaços são planejados.
Decisões arquitetônicas e de engenharia podem afetar diferentes dimensões ambientais ao mesmo tempo.
A posição de uma fachada, por exemplo, pode influenciar carga térmica e iluminação natural.
Mudanças de layout podem interferir na distribuição do ar, no conforto térmico e na acústica.
A especificação de materiais pode ter relação tanto com características acústicas quanto com emissões químicas no ambiente.
Por isso, uma visão integrada pode ajudar equipes de projeto a considerar desde o início como diferentes decisões interferem no desempenho ambiental do espaço.
O objetivo não é criar uma solução única aplicável a todos os edifícios.
É reconhecer que as condições ambientais estão conectadas.
Isso significa que haverá uma nova exigência para os edifícios?
Ainda não.
O Standard 235P está em desenvolvimento e não deve ser tratado como uma norma final já publicada.
A própria ASHRAE define atualmente seu propósito e escopo como parte do processo de criação do padrão. (ASHRAE, 2026)
Também é importante destacar que a proposta divulgada não busca estabelecer critérios médicos ou clínicos, nem substituir exigências existentes em outros padrões da entidade.
Por isso, neste momento, o principal valor para o mercado está em acompanhar a direção dessa discussão.
Ela mostra que uma das principais referências internacionais em engenharia de ambientes construídos está trabalhando para consolidar uma abordagem mais integrada de qualidade ambiental.
Por que acompanhar o 235P antes de sua publicação?
Normas e padrões técnicos não começam a influenciar o mercado apenas quando sua versão final é publicada.
O processo de desenvolvimento já sinaliza quais temas estão ganhando importância para especialistas, entidades técnicas e profissionais do setor.
No caso do Standard 235P, a mensagem é clara: avaliar o desempenho ambiental de um edifício apenas por indicadores isolados pode ser insuficiente para compreender completamente as condições enfrentadas pelos ocupantes.
Para empresas, Facilities e equipes de engenharia, acompanhar essa evolução pode ajudar a antecipar discussões que tendem a ganhar espaço nos próximos anos.
Também pode estimular uma revisão importante das próprias práticas atuais.
As informações ambientais estão sendo analisadas de forma integrada?
Existem históricos capazes de relacionar diferentes reclamações e parâmetros?
Mudanças de layout são acompanhadas por novas avaliações?
A percepção dos ocupantes é considerada juntamente com as medições técnicas?
Essas perguntas já podem contribuir para uma gestão mais completa dos ambientes, independentemente da futura publicação do padrão.
O ambiente funciona como um sistema
Qualidade ambiental interna não depende de um único equipamento, parâmetro ou disciplina.
O ar respirado pelos ocupantes, a temperatura percebida, a iluminação disponível, o ruído e as características da edificação fazem parte de uma mesma experiência.
O desenvolvimento do ASHRAE Standard 235P reforça essa visão integrada e aponta para uma discussão que deve ganhar relevância entre profissionais responsáveis por projetar, operar e avaliar edifícios.
Para a Conforlab, acompanhar movimentos como esse faz parte de uma atuação técnica que busca compreender os ambientes para além de resultados isolados.
Quanto mais integrada for a avaliação, mais informações existem para compreender o que realmente está acontecendo dentro de um edifício.
Referência: ASHRAE. BSR/ASHRAE Standard 235P – Standard for Indoor Environmental Quality (IEQ) in Buildings. 2026.
Perguntas frequentes sobre o ASHRAE 235P
O que é o ASHRAE 235P?
O Standard 235P ainda está em desenvolvimento. Seu projeto foi autorizado pela ASHRAE em fevereiro de 2026, com o objetivo de criar uma estrutura integrada para avaliação da Indoor Environmental Quality em edifícios.
Quais condições o ASHRAE 235P pretende avaliar?
O novo padrão pretende considerar diferentes domínios ambientais de forma conjunta, incluindo qualidade do ar, condições térmicas, iluminação, acústica e características dos sistemas e da própria edificação que possam influenciar o desempenho ambiental.
O ASHRAE 235P substitui as normas que já existem?
A proposta é complementar as normas já existentes da ASHRAE, e não substituir os padrões específicos relacionados a cada domínio ambiental.
O ASHRAE 235P já é uma exigência para os edifícios?
Ainda não. O Standard 235P está em desenvolvimento e não deve ser tratado como uma norma final já publicada.